Nao confio no mercado
This entry was posted on Monday, July 02, 2007 10:28:00 PM and is filed under uncategorized.
Li hoje uma entrevista do ilustre Presidente do Conselho de Reitores.
Quem ocupa um cargo destes arrisca-se a ser tomado por voz representativa da corporação a que pertence e a que tão garbosamente preside....
Andam os reitores universitários a dirigir o ensino universitário desde o século XIII do grande D. Dinis. São muitos anos.... um prazo muito largo para formar as elites deste País. As estratégias dos ilustres reitores, nas últimas décadas, dados os resultados negativos do Sistema Educativo, têm de ser revistas...
Nos Países onde as elites sabem agir, porque são respeitados os melhores princípios e valores que a cultura humana já produziu, o bom exemplo alastra.... Espalham-se, assim, as "boas práticas" sociais aos cidadãos comuns...
Ao longo do tempo e das gerações, o senso comum aperfeiçoa a suas referências, cresce e dignifica-se. Este crescimento é o resultado de uma dinâmica positiva de respeito mútuo e interação entre o cidadão cumum e os cidadãos ilustres... Sempre que olhamos para sociedades e culturas que marcaram uma época, que contribuiram para a História da Humanidade, vemos esta dinâmica em acção.
Quando as elites não têm valor, quando não dão exemplos positivos e a sua presença é apenas o testemunho conservador, irritante e incómodo, dos privilégios de que se julgam merecedores, então não tarda a que as elites despertem, não a admiração, mas a inveja; não se vislumbram, de facto, razões que justifiquem tais privilégios...
Nas últimas décadas as nossas elites têm-se portado muito mal... veja-se o escândalo da elite dos "Gestores Públicos"... Depois de uma Revolução que promoveu as nacionalizações, ficaram nas EP, as empresas públicas, a maior parte do património nacionalizado, do POVO, nosso.
E o que aconteceu??? Os Gestores Públicos, em quem o POVO fez confiança para gerir esse património, não só deixou essas empresas, na maior parte dos casos, em situção deficitária, como se pagaram com os mais desavergonhados benefícios e regalias!!!! Fizeram-nos o favor, há que reconhecer, de deixar uma marca indelével e um exemplo inesquecível do pior oportunismo Português.
Mas voltemos ao nosso Presidente do Conselho de Reitores. O Presidente afirma na entrevista que não pode deixar ao mercado, isto é, ao critério de todos nós, os cidadãos comuns, a avaliação dos professores ou das instituições ou dos diplomas...
Não. Em Portugal o "mercado" é imaturo, obtuso, incapaz de exercer as suas funções. Ou melhor, os cidadãos que, na prática, compõem o mercado, são demasiado ignorantes e estúpidos para saberem exercer um dos mais básicos direitos da cidadania, a liberdade de escolher o que se compra. Ora, são so cidadãos que compram, e pagam, o trabalho dos ilustres Reitores e demais académicos...
Portanto, temos de concluir também que, inteligentes e esclarecidos sãos os ilustres académicos. São as elites, no dizer do Sr. Presidente do Conselho de Reitores, que têm competência para avaliar a competência com que exercem a sua profissão.
Só que....
Só que, Sr. Presidente, a imaturidade do mercado, que o Sr. tão despudoradamente reconhece e assinala, é a prova acabada da incompetência das Universidades deste País... Em oito séculos ainda não conseguiram transmitir às sucessivas gerações de cidadãos comuns o exercício da mímina inteligência que é exigida para se escolher o melhor produto do mercado??? Ainda não???
Se os cidadãos comuns e interessados, normalmente Estudantes ou Encarregados de Educação, ainda não são capazes de reconhecer quais os bons (universidades, professores, cursos, diplomas...), quais os maus e quais os assim assim, então como é que se exerce a avaliação - a avaliação que promove, ou reconhece, a qualidade?
Ah, bom, isso...
Isso, ou fica definido e petrificado na rigidez das sacrossantas tabelas ( tabelas de remunerações, de subsídios, etc...) de cariz político e igualitarista, elaboradas por directórios políticos que, geralmente, são tão interesseiros na distribuição de benesses aos amigos como paternalistas no seu desprezo pelo povo que dzem representar e em nome do qual dizem decidir....
Ou, em alternativa, fica estipulado em regulamentações dimanadas de elites da própria corporação Universitária, como o Conselho de Reitores, alegando estas elites estar a exercecer a sua suposta "autonomia".
Pergunta-se: mas então, desde quando decide melhor e mais imparcialmente quem está dependente e comprometido cm os resultados das avaliações?
Sim, têm competência... Mas têm o carácter necessário? Têm a coragem e a nonestidade para apontar as falhas, retirar regalias, encurtar benefícios e anular previlégios a quem os não mereça????
Devemos nós acreditar mais na auto-avaliação destas elites, que são altamente corruptíveis pela irresistível atracção de poderem manter, ou até aumentar, os privilégios de que usufruem, do que na avaliação e exigência dos que, na prática, pagam os serviços dessa elite e irão, inevitavelmente, sofrer com a falta de qualidade das Universidades, dos professores, dos diplomas???
Por mim, Sr. Presidente do Conselho de Reitores, continuo a preferir o mercado!
Quem compra serviços Universitários (e os paga) tem todas as razões para exercer uma avaliação cuidadosa, e para melhorar progressivamente essa avaliação...Sempre que avaliar mal, sofrerá na pele (ou no bolso) as consequencias dos seus erros, e terás toda a motivação necessária para corrigir a sua avaliação.
Já no caso dos ilustres académicos, que vendem esses serviços, eles estão reféns dos seus próprios. interesses....
Até,
ofilosofo
João Seabra Botelho