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Assim vai a Presidência... Parte I - Cavaco dá lição a Soares

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This entry was posted on Sunday, September 30, 2007 10:32:00 PM and is filed under uncategorized.


I    -   CAVACO DÁ LIÇÃO A SOARES



O Presidente Cavaco Silva continua paulatinamente a cumprir um dos principais objectivos da sua presidência.

O objectivo a que me refiro, e que ele nunca anunciou, ou anunciaria, mas que para mim é óbvio, é o objectivo de dar<uma lição a Mário Soares.... Como? Mostrando a todos a diferença entre a sua atitude de apoio institucionalmente leal ao Governo Eleito e a atitude do próprio Soares, sobretudo no seu segundo mandato, de oposição activa ao Governo de então, aquele que foi o último governo de Cavaco Silva.

Tendo sofrido na pele a acção dessa "força de bloqueio", tendo visto Mário Soares, na sua permanente apetência pela peleja política e pelo exercício do Poder, incapaz de resistir a transformar a sua Presidência da Republica na sede oculta da Oposição, Cavaco Silva aproveita agora para dar uma estalada de luva branca a Mário Soares.

Culmina, assim, uma época infeliz para este político, época que começou quando teve a ideia de se candidatar novamente à Presidência, sujeitando-se a uma estrondosa derrota e arrastando consigo o PS.
 
Soares, aliás, deve agradecer a Manuel Alegre, com o seu honroso segundo lugar, o ter disfarçado a derrota do aparelho partidário do PS, refém dos favores que devia a Soares, e ainda o ter afastado da ribalta a infelicíssima tese Soarista (e esquerdista, porque, quando é preciso, o burguesíssimo Soares é esquerdista...) de que Cavaco Silva trazia atrás de si os papões antidemocratas... Por momentos, parecia que Cunhal tinha reencarnado em Soares e este usava a velha táctica Alvarina de antecipar a doença para impor a cura!

Quem não se lembra do período pos 25 de Abril em que tal táctica de antecipação resultou na perfeição? Houve  várias situações destas... lembremos duas ou três, como o 28 de Setembro, o 11 de Março, o Golpe de Luanda, em que, para evitar ou repelir um ataque da perigosíssima Reacção - ataque, entenda-se, inexistente ou quase... - as forças comunistas davam mais um passo em frente na Revolução???

Mário Soares, portanto, tentou, nessa candidatura presidencial, reagrupar e estimular a luta das forças de esquerda apontando Cavaco como um homem de perfil supostamente autoritário e reaccionário... Que falhanço rotundo...

Paulatinamente, portanto, Cavaco continua a demonstrar no quotidiano da sua Presidência que é mais "homem do povo" que Soares alguma vez foi, e que é um social-democrata, ou não fosse ele um Keynesiano que admira a intervenção reguladora de um Estado sábio e forte, que mantém a sociedade coesa e a economia em boa saúde.

Esta dimensão economicista de Cavaco é, de facto, social-democrata.

Mário Soares, que é Republicano, laico e Socialista, vê-se em palpos de aranha para conjugar a defesa Republicana dos direitos individuais - que se chama liberalismo, na tradição inglesa do termo - com o Estatismo Socialista, sabendo-se, pela História, que veio dos excessos do Poder do Estado, desde sempre, e fosse qual fosse o regime, o grande perigo e restrição ao exercício dos Direitos do Cidadão.

Ora, Cavaco não vive esse drama. As teses keynesianas em que se formou como economista permitem-lhe ter uma visão realista e pragmática da intervenção reguladora do Estado, mas em permanente compromisso com as bases indispensáveis do "sistema capitalista" e da "economia de mercado".

Ao contrário de Mário Soares, Cavaco nunca foi do PC, nem militou num partido que decretou as Nacionalizações, nem nunca se viu forçado a pôr o "Socialismo na gaveta". Em compensação, vem de família modesta e sem pergaminhos políticos, quer de Direita, quer de Esquerda. Não admira, portanto, que receba votos de vários quadrantes políticos que aderem a esta ou aquela faceta da sua história pessoal e personalidade. Enquanto homem disciplinado e cumpridor, que subiu a pulso na vida, Cavaco é um defensor do Estado de Direito e dos Direitos e Deveres do Cidadão, ou seja, é um Conservador pelo respeito à Lei e um Liberal pelo respeito à Cidadania. Enquanto economista keynesiano, é um defensor da intervenção keynesiana do Estado regulador na economia de mercado, ou seja, é um Social-Democrata.

Ora Mário Soares decidiu crispar o quotidiano político do seu último mandato, não resistindo a minar, com acusações de "Direitismo" - isto é, de excessos de disciplina e autoridade do Cavaquismo - o governo em funções, numa clara falta de lealdade institucional  e constitucional. Dessa estratégia de deslealdade para com o Governo veio a resultar o fim do governo Cavaquista. O PS ficou agradecido, e refém, de Mário Soares....

A derrota social-democrata e o retorno do PS ao Governo, embora sob a liderança de Guterrres, socialista pouco simpático a Soares e à sua costela laica e republicana, geraram um período que deveria ter correspondido ao definitivo adeus de Soares à Política Activa...

Em vez disso, porém, resolveu cobrar o favor que o PS lhe devia, impondo-se como candidato à Presidência....

Tendo já tido o prazer e a honra de derrotar o primeiro-ministro Cavaco, não resistiu à tentação de o derrotar segunda vez.... Afinal, pensava ele, tratava-se de repetir duas receitas já usadas antes com sucesso - reavivar a dicotomia Direita - Esquerda que já lhe dera a vitória nas Presidenciais contra Freitas do Amaral e repôr o perfil mauzão e autoritário de Cavaco Silva, que lhe permitira forçar o termo da carreira do então primeiro-ministro. Depois, contava com o déja-vue.... Segunda volta, votos de toda a esquerda, incluindo o PC, etc...

Mas Cavaco ganhou à primeira volta.
 
Todos os Portugueses perceberam (e Soares terá percebido?) que Cavaco deu uma primeira lição a Soares sobre o seu verdadeiro perfil perante o Povo Português.
 
E a lição vai continuar... Cavaco irá respeitar os limites do Poder Presidencial e a lealdade institucional com o Governo em Funções, a bem de Portugal, de uma forma que envergonhará o Soares do segundo mandato presidencial e da infeliz e serôdia candidatura à Presidência.

Iremos ainda ver, até ao final da presidência de Cavaco, se este dará também uma lição que envergonhará o Jorge Sampaio da demissão de Santana Lopes... é que essa decisão teve graves consequências perniciosas:
- trouxe o partidarismo ao topo do exercicio do Poder do Estado, o que é mau... o PS foi objectivamente favorecido pelo Presidente ... Socialista.
- denegriu a imagem e o crédito do Parlamento, menorizado perante um Poder Presidencial que desmantelou uma maioria estável e Parlamentarmente legítima para apoiar um Governo. 
- criou o precedente de um Presidente que anunciou "oficialmente" ao Primeir-Ministro em funções que o iria vigiar de perto. Assim, anunciou que iria exercer, ou seja, usurpar, a mais relevante função do Parlamento - a função de vigiar, criticar e demitir governos com menções de censura.     

Cavaco tem condições, agora, para fechar a sua carreira política com chave de ouro, ao mostrar à evidência duas coisas:
1 - quão totalmente fictício era o perigo "direitista" que impedia candidatos "da Direita" de serem eleitos para a mais alta magistratura da Nação. Esse folclore esquerdizante cairá por terra quando o homem que foi acusado pelo Pai da Democracia, Soares, de suspeito antidemocrata se comportar como um verdadeiro defensor do Estado de Direito e da legalidade democrática.
2 - que a Presidência da República ganha em não ter homens excessivamente partidários, que tendem a favorecer, mais cedo ou mais tarde, os seus partidos, como aconteceu com Soares e Sampaio, enfraquecendo e descridibilizando a actividade Parlamentar que gera os Governos. Cavaco, que cultivou sempre um perfil de não subserviência à doutrina partidária e de desconforto perante o jogo político dos interesses dos grupos de pressão, nada fará para beneficiar o PSD ou prejudicar o PS nessa área do poder político em que deve ser o Parlamento a pronunciar-se.

Mas antes de terminar a sua Presidência, Cavaco ainda vai ter de tomar muitas decisões, nomeadamente sobre a legislação produzida pelo Parlamento. Aí, pode acertar ou cometer erros avulsos. É o tema da parte II.

ofilosofo

 

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