FURUM PHILOSOPHICUM

comentarius quotidianus

Sangue nas ruas... dos outros!

Print the article

This entry was posted on Friday, November 14, 2008 6:44:00 PM and is filed under uncategorized.

Napoleão (Por Nimesh Desai)

          Diz-se que na sequência da turbulência gerada pela aventura dos 100 dias que Napoleão iniciou com a fuga de Elba e que terminou na derrota de Waterloo e exílio para Sta Helena, Nathan Roschild teria feito o seguinte comentário: " deve-se comprar quando o sangue corre pelas ruas".
 
Este comentário terá tanto de verdadeiro, do ponto de visto do negócio e da frieza dos números, como do ponto de vista da análise, mesmo que cruel, da natureza humana e do que costuma chamar-se "a psicologia das multidões".

O Cidadão Comum assiste com alguma perplexidade a esta crise do Capitalismo. E tenta perceber onde está a gravidade da situação, não tanto para a economia global, de que não tem grande conhecimento, mas para a sua vida diária...

Quanto aos ricos, estamos conversados: os menos espertos e mais gananciosos, os que arriscaram em demasia para obter maiores e mais rápidos ganhos, estão a perder fortunas... Mas as fortunas que uns perdem, são as fortunas que outros ganham, os que, como a família Roschild, sabem, há gerações, aguardar até que o "sangue corra nas ruas".

Toda esta crise, percebe o Cidadão Comum depois de algumas leituras na Net (abençoada Net...), tem a sua origem no seguinte: instrumentos financeiros ( como, por exemplo, os CDS, "Credit Default Swaps", ou os CDOs, "Collateralized Debt Obligation"), derivativos a que Warren Buffet chamou " as armas de destruição em massa...da "massa".

Inventados para diminuir e espalhar o risco, estes "derivativos" ( derivativos porque o seu valor não depende de si-próprios, mas do valor de outros papéis financeiros a que estão referenciados, como hipotecas, obrigações, acções, etc...), tiveram, afinal, um efeito exactamente contrário, e desvastador: agravaram o risco, porque o "esconderam" e, á medida que o risco aumentava com a crise do Imobiliário, impediram a sua correcta avaliação. Assim, a chamada "securitização", que foi a palavra mágica dos meninos espertos de Wall Street que se espalhou pelos comentaristas económicos de todo o mundo, acabou sendo a "mistificação". O remédio virou veneno. 
 
A piorar a situação, ocorreram duas "estratégias políticas" que contribuiram para potenciar a crise:
- Bill Clinton "mandou" facilitar a atribuição de crédito às crescentes minorias étnicas (afro-americanos e hispânicos) que, em estados como a Califórnia, se preparavam para passar de minorias a maiorias...
- Greenspan, Presidente da Reserva Federal, decidiu tornar o dinheiro mais barato e encharcar a América de liquidez; isso aumentou a facilidade dos "bancos de investimento" em alavancar os negócios financeiros especulativos, nomeadamente o dos "derivativos", e reforçou as "facilidades" ordenadas por Clinton, o que induziu milhões de famílias a endividarem-se excessivamente na compra de casas supostamente em valorização.
 
Foi a "bolha do Imobiliário", que se seguiu à anterior "bolha das Tecnológicas"! 

Os gigantescos bancos americanos de investimentos, com todo aquele dinheiro disponível - e Greenspan a baixar os juros -fizeram então o mesmo que o transmontano que se empanturra no Verão com as alheiras que devia guardar para o Inverno. E apanharam uma congestão!

Paradoxalmente, os CDS e os CDOs, e outros produtos financeiros similares, vistos, agora, como créditos "tóxicos" que envenenaram as mais poderosas instituições financeiras de Wall Street, partiam de um princípio, aceite como estatisticamente certo, de que é possível e desejável repartir o risco de créditos maus, diluindo-os em grupos de créditos bons. Diminuir o risco, diminuir o risco - era a receita mágica do investimento, a febre dos "Fundos de Margem" (Hedge Funds), que atrairam biliões aos cofres da Ilha de Manhattan.

Tudo parecia correr bem. 

Na verdade, a ideia até não era má... Assim, um CDO, por exemplo, agrupa cinco mil empréstimos de habitação num mesmo pacote, que é vendido em três tranches, cada qual com riscos crescentes e remunerações proporcionais. A intenção é que, caso haja falhas no pagamento de alguns empréstimos, quem primeiro perde dinheiro é o comprador da tranche "mais ambiciosa", enquanto que o comprador da tranche mais conservadora, conforme a estatística, provavelmente nem chegará a ser afectado.

Funciona aqui a mesma lógica que usamos nos seguros... Se dez milhões de automobilistas pagarem um seguro e só dez mil tiverem acidentes, tudo funciona bem. Tão bem, que até os que guiam mal e estão sempre "a bater" vêem os seus arranjos pagos pela companhia de seguros, isto é, pelo prémio dos outros condutores que não "batem".

Mas é óbvio que esta "segurança" acaba no momento em que o número de maus condutores, ou de acidentes, aumente exponencialmente... Se cinco milhões baterem, onde está o dinheiro que chegue para pagar os arranjos??? 

Foi isto que fez cair, entre outros, a gigantesca A.I.G., que patrocina a "camisola" do nosso Cristiano Ronaldo, quando joga pelo Manchester... A A.I.G. aceitou "segurar" hipotecas de emprétimos de habitação por pequenas quantias de prémio. E enquanto o Imobiliário esteve bem, milhóes de hipotecas de empréstimos de habitação contribuiram, cada qual com o seu pequeno prémio, e todos somados, para os milhões de um lucro inesperado e inusitado, milhões que fizeram a felicidade, a fortuna e o prestígio dos executivos da A.I.G., pomposamente instalados na sua torre nova-iorquina, a trocarem elogios mútuos e taças de champanhe....

Mas... e quando esses milhões de créditos à habitação entraram em incumprimento?
 
Claro, não havia liquidez que chegasse para pagar todas as apólices!!! De um dia para o outro, começaram a chover, às catadupas, as hipotecas e os créditos mal-parados, para serem redimidas pelo dinheirinho do valor segurado!!!

O Cidadão Comum até fica com vontade de rir, ao ver todos estes génios das finanças em tão maus lençóis. É sempre bom o banho de humildade... Resta saber se aprenderão alguma coisa!

Entretanto, a recessão aproxima-se a passos largos.

Para o Cidadão Comum, em Portugal, não parece tão mau assim: afinal, as taxas de juro vão baixar, e também as prestações dos empréstimos bancários... O desemprego pode aumentar, mas já tinha aumentado tanto nos dois últimos anos, que a diferença não pode ser muita.... O petróleo baixou, e mesmo que volte a aumentar, toda a baixa, enquanto durar, é bem vinda...

Já do lado positivo, temos que algumas das nossas características vão ganhar com a crise...
 
Ora vejamos:
1- Está garantido o pagamento a 700.000 funcionários publicos e a 300.000 reformados e pensionistas sem o défice público ultrapassar os limites impostos por "mamã Europa" ( o Cidadão Comum aguentou com o aperto brutal da tenaz do fisco, e as habituais fugas dos mais poderosos também diminuiram!). Portanto, está garantida a estabilidade política, que depende essencialmente deste universo de votantes.

2 - Permanece a relativa segurança com que se vive em Portugal, e a simpatia e brandura dos nossos costumes (apesar de alterações demográficas e culturais que aumentaram os riscos).
 
3- Mantém-se a solidez do nosso sistema bancário, que passou pelos "escândalos" antes da "crise" e agora está "muito bem comportado" e pouco envolvido, ao que parece, nos créditos "tóxicos";

4 - Continua sólida a dinâmica política voluntarista do "centrão", chefiada por um Sócrates trabalhador e um Cavaco professor de Economia, dupla ideal para a situação presente;
 
5 - Desenvolve-se a boa relação da nossa economia com "economias emergentes" no universo da CPLP (Brazil e Angola); 

6 - Mantém-se a nossa capacidade de emigrar para a Europa , para receber salários Europeus e mandar algum para a "terrinha", e de receber imigrantes com mais vontade de trabalhar que os portugueses que cá ficam...

7 - Mantemos intactas as dádivas da boa culinária, do bom clima, e de um secreto carisma Português que nem nós sabemos muito bem o que é, mas que tem a ver com a natureza de um povo que, desde há muito, tem sido criticado ou ridicularizado, como analfabeto, ignorante e tacanho, pelas suas elites vanguardistas (liberais, republicanos, marxistas)  e que, hoje, já não o é... Hoje, até os tão criticados três "F" - Fátima. Futebol e Fado, em que se perdiam e degradavam as "massas populares" vítimas do "obscurantismo",  parece que até estão na moda ou, pelo menos, já não ficam mal a ninguém; Fátima foi ratificada e exaltada pelo Papa mais importante do século XX, o fado é uma das nossas características peculiares e "música da cultura mundial", e o resto são capacidades e talentos para brilhar numa grande indústria europeia (a indústria do espectáculo da bola) e ganhar salários nunca vistos!!!

Estamos, portanto, após 4 anos de crise e jejum, prontinhos para aproveitar a retoma Europeia que vai dar-se dentro de dois anos... Fortalecidos pelo esforço e emagrecimento destes anos "socráticos" e libertos da sensação de inferioridade por vermos todo o mundo padecer de crises piores que a nossa, e terem dívidas colossais que tornam ridícula a nossa própria dívida... Aí vamos, secretamenter confiantes, em direcção ao futuro!

Desta vez, talvez os nossos empresários até sejam suficientemente espertos para perceber qual a oferta que podemos disponibilizar aos nossos "clientes" - pois tudo, em última análise, se decide no equilíbrio entre "exportações" e "importações" - em vez de tentarmos vender aquilo que chineses e indianos fazem mais barato.


João Seabra Botelho
ofilosofo
 

What did you think of this article?




Trackbacks
Trackback specific URL for this entry
  • No trackbacks exist for this post.
Comments

    Leave a comment

    Submitted comments are subject to moderation before being displayed.

     Enter the above security code (required)

     Name

     Email (will not be published)

     Website

    Your comment is 0 characters limited to 3000 characters.